Casamentos dissidentes: Gastão Albernaz e Paulo Bittencourt Marino - 1952 - EP.2
Por Luiz Morando*
Na noite de 22 de março de 1952, na cidade do Rio de Janeiro, uma denúncia anônima dirigida à Delegacia de Costumes e Diversões levou uma equipe do delegado Deraldo Padilha à rua Visconde de Paranaguá, 16, na Lapa. A pessoa reclamante se queixava da “confusão e gargalhadas e ritmos de baiões mal tocados [que] apoquentava[m havia muitas horas] os moradores da redondeza”.
No endereço – um vistoso palacete antigo que naquele período servia como casa de aluguel de cômodos – estava sendo realizada uma cerimônia de compromisso entre o decorador Gastão Albernaz e Paulo Bittencourt Marino. A festa em questão comemorava a cerimônia.
O cerco da polícia e sua chegada ao velho palacete foi feita de maneira violenta, tendo aumentado seu grau quando este cenário se descortinou aos policiais: “Pares de homens rodopiavam pelo salão. Outros pares de homens estavam, aos cochichos, pelos cantos. E havia champagne a valer, refrescos, doces, alegria. Quando todos perceberam a presença do comissário, que já tem nome em marchinha carnavalesca, assustaram-se. Deram gritos finos, levantaram mãos até aos lábios numa cândida estupefação. Outros, porém, mais espertos, trataram de ganhar qualquer abertura que servisse para uma fuga. Não foram poucos os detidos.” (O Globo, 24/03/1952, p. 3) É claro que o relato é atravessado pelo preconceito, o deboche e a má vontade do jornalista.
A celebração reuniu os amigos do casal Gastão e Paulo, que se unia pelos laços de uma união afetiva e amorosa diante dos amigos. “[…] o oficiante da cerimônia era Carlos Pereira, funcionário da Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Empregados da Central do Brasil, que, juntamente com o cabeleireiro Manuel Bitran, o bancário Leonardo Rueda, o industriário Ney Grantan e o escriturário Francisco Vieira da Costa, cederam o palacete para a festa.” As pessoas presentes à festa pertenciam a diversos grupos sociais e várias profissões, como comerciários, funcionários públicos federais, profissionais liberais, estudantes. Pelo menos vinte e quatro convidados daquela festa foram levados à delegacia, fichados e tiveram os nomes e endereços completos, bem como profissões, divulgados nas reportagens do dia 24 de março daquele ano.
A humilhação e o vexame públicos certamente acarretaram consequências para suas vidas pessoais, familiares, profissionais e nos arredores de onde moravam.
Esse tipo de cerimônia, como veremos em outros relatos desta série, prece ter se tornado comum a partir da década de 1950 no Brasil.
Fotos:
1. Casamento de Gastão e Paulo – 1952 – OG 24-03-1952 Crédito: O Globo, Rio de Janeiro, ano XXVIII, n. 7.936, 24/03/1952, p. 3 Acervo Digital O Globo
2. Casamento de Gastão e Paulo – 1952 – TI 24-03-195 Crédito: Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, ano IV, n. 689, 24/03/1952, p. 6 Acervo: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
3. Palacete dos Amores — imagem do local onde o casamento foi realizado. Fotógrafo: L. moraes. Rio – Casas & prédios. Facebook.