Casamentos dissidentes: Edmundo de Oliveira e Maria Raimunda Silva - 1958 - EP.4

Por Luiz Morando*

Julho de 1952. O jornal Diário de Minas publicou reportagem de quase uma página sobre um homem que fazia sua transição de gênero aos olhos do público. No texto, ele apresentou sua identidade de gênero ao relatar sobre seus hábitos, seu modo de vida, sua origem. Um homem trans surgia aos olhos do público (embora a reportagem tenha sido feita com seu nome morto)! O jornal não noticiou a repercussão de sua reportagem nos dias seguintes, e o caso pareceu ter caído em esquecimento…

Agosto de 1981. Os jornais da cidade anunciaram com estardalhaço a morte de Edmundo de Oliveira, um rondante noturno de uma revendedora de automóveis. Ele havia passado mal do coração em seu turno de trabalho. Levado ao Pronto-Socorro, ele não resistiu e faleceu. Durante a preparação de seu corpo, verificou-se que Edmundo tinha seios e vagina.

Ao longo de uma semana, as investigações policiais rastrearam a vida de Edmundo, que resumo aqui: ele nasceu em 7 de agosto de 1914, em Alto do Rio Doce, em uma família de fazendeiros. Transferiu-se para Belo Horizonte em 1933, depois de diversos desentendimentos com sua família devido à sua identidade de gênero. Em 1934, relatou a uma prima: “Quero ser homem e pobre, viver do meu trabalho; não quero ser mulher, quero ser homem de qualquer maneira e ainda vou conseguir isso.” Ele viveu na capital mineira até morrer. Em 1954, Edmundo obteve uma certidão de nascimento com seu nome em um cartório civil da cidade. É possível que ele tenha narrado uma história envolvendo perda de documentos. Em 1958, casou-se no mesmo local com Maria Raimunda da Silva, conforme se vê pelo edital de matrimônio publicado em um jornal da época e a segunda via de sua certidão de casamento.

Edmundo ficou viúvo em 1976. Viveu como homem pobre e do seu trabalho até o momento de sua morte, como manifestara à sua prima.

Infelizmente, foi sepultado no Cemitério da Paz… com o nome que seus pais lhe deram no registro civil…

 

*Luiz Morando é co-fundador do Museu Bajubá, onde exerce a vice-presidência e a coordenação da Estação Belo Horizonte.

Fotos:

1. Edmundo Oliveira. Diário de Minas, Belo Horizonte, ano IV, n. 909, 09/07/1952, p. 12 Acervo: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

2. Edital de casamento. O Diário, Belo Horizonte, 12/04/1958, p. 9 Acervo particular Luiz Morando

3. Certidão de casamento. 2ª via de certidão de casamento de Edmundo de Oliveira Acervo particular Luiz Morando

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