Encontros em Niterói (1966) e Petrópolis (1968)
Por Luiz Morando*
Nos anos 1960, a expressão ‘terceiro sexo’ era utilizada para se referir ao homem cisgênero homossexual (independentemente de dar mais ou menos pinta) e à travesti. Era uma forma notadamente pejorativa que, sobretudo, a imprensa utilizou para se referir àqueles segmentos. Ainda assim, não fica claro se o uso do termo “travesti” designa uma identidade de gênero ou uma referência a homens gays que se montam.
Alguns acontecimentos praticamente desconhecidos entre 1966 e 1968 foram as tentativas de realizar um Congresso Nacional do Terceiro Sexo no Brasil. As poucas informações existentes sobre essas iniciativas provêm de jornais da época. Não há muita clareza sobre as lideranças, a forma de comunicação, as redes de sociabilidade que davam sustentação, as discussões que subsidiavam a organização dos eventos, sua forma de divulgação. Todavia, são registros inequívocos de tentativas de organizar minimamente uma frente de ação que procurava estabelecer direcionamentos comuns e conquistas de direitos.
Setembro de 1966 – O jornal Luta Democrática noticiou o propósito de realização do I Congresso Nacional do Terceiro Sexo, em Niterói, com a intenção de discutir sobre casamento, felicidade no lar, traição e ética, entre outros temas. De acordo com a reportagem, “O tal ‘congresso’ reuniria a fina flor dos invertidos sexuais e seria realizado no edifício Rio-Niterói, mas as autoridades da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio afirmam desconhecer qualquer coisa nesse sentido, apesar dos promotores anunciarem o evento para a segunda quinzena deste mês.” A polícia não fez por esperar: interveio e impediu a realização do evento.
Março de 1968 – O jornal O Fluminense deu a seguinte nota a respeito da tentativa de realizar um novo encontro de travestis, desta vez na cidade de Petrópolis (RJ):
“De repente, às primeiras horas da tarde de ontem, Petrópolis foi invadida por uma delegação de 35 ‘bonecas’, representando alguns Estados, que pretendiam, com o apoio de suas ‘colegas’ do clima fresco, realizar em Quitandinha o I Congresso Nacional de Bonecas cujo temário principal era a ‘vida na sociedade’. Mas aí o delegado Péricles Gonçalves ponderou a ‘elazinhas’, lideradas pela loura e escultural Maria Antonieta, que aquela reunião nada tinha de edificante e que a austera Petrópolis não podia ser a sede do estranho conclave. Elas bateram de com força as sandálias, sacudiram as plumas e foram presas. Na Delegacia, o delegado mandou um preso raspar as cabeças das mais ‘exaltadas’, fato que provocou a ira de Rosinha, bem nutrida pouquinha coisa, que tentou agredir o barbeiro improvisado. Agora as ‘bonecas’, alegando liberdade de expressão e de pensamento, vão mover queixa-crime contra as ‘arbitrariedades’ do ‘delegado-bofe’ Péricles Gonçalves.” (O Fluminense, ano XC, n. 23.089, 27/03/1968, p. 1)
A breve reportagem aponta, de um lado, um número considerável de pessoas, “de alguns estados”, presente para um evento que foi divulgado boca a boca. Por outro lado, as ostensivas repressão e violência policiais estão patentes na detenção, fichamento e raspagem do cabelo de algumas pessoas detidas.
Conforme divulgou o Diário de Minas (Belo Horizonte, ano XIX, n. 5.587, 29/03/1968, p. 5), os participantes tentaram uma reação, mas não obtiveram êxito. Leiam aqui:
“Niterói (AJB) – A Delegacia de Costumes fluminense prendeu, nesta Capital, dois travestis de um grupo de 10 que tentou improvisar uma passeata de protesto diante da Polícia Central contra a prisão, em Petrópolis, de 35 outros que tentavam realizar naquela cidade o ‘primeiro Congresso Nacional de Bonecas’.
Os travestis foram libertados, mantidos seus nomes em segredo, enquanto na praia das Charitas policiais prenderam o estudante do liceu Nilo Peçanha Milton Holiday de Carvalho, de 20 anos, que servia de ‘cicerone’ a um grupo de travestis, dos que haviam sido presos em Petrópolis.”
*Luiz Morando é co-fundador do Museu Bajubá, onde exerce a vice-presidência e a coordenação da Estação Belo Horizonte.
Fotos:
1. Congresso Nacional 3º Sexo 1 – LD 11 e 12-09-1966 Crédito: Luta Democrática, Rio de Janeiro, ano XIII, n. 3.861, 11 e 12/09/1966, p. 1 Acervo: Hemeroteca Digital Brasileira
2. Congresso Nacional 3º Sexo 2 – LD 11 e 12-09-1966 Crédito: Luta Democrática, Rio de Janeiro, ano XIII, n. 3.861, 11 e 12/09/1966, p. 2 Acervo: Hemeroteca Digital Brasileira