O orgulho antes do Orgulho - Darcy Penteado
Por Rita Colaço-Rodrigues*
Darcy Penteado é mais um dos personagens importantes na geração precursora do Movimento Homossexual Brasileiro (MHB). Paulista de São Roque, na região metropolitana de Sorocaba, nascido em 1926, desde aproximadamente 1944 atuava profissionalmente no campo das artes visuais (como artista plástico, desenhista, cenógrafo e escritor). Através de informações do pesquisador Luiz Morando, infere-se que ele (e o seu companheiro de então, o também artista plástico e poeta Reynaldo Bairão) possivelmente integrou o grupo analisado por José Fábio Barbosa da Silva em fins dos 1950, vez que era amigo de José Fábio Barbosa da Silva e do companheiro deste, o também artista plástico Paulo Becker (Morando, 2023). Darcy, cofundador do Lampião da Esquina, integrou o Somos/SP e sua cisão, o Grupo Outra Coisa, a partir do qual se destacou na luta contra a pandemia do HIV-Aids, ainda nos seus anos iniciais. Ali, coproduziu um dos primeiros (senão o primeiro) cartazes voltados para a conscientização sobre o vírus, visando romper com a onda de satanização das práticas sexuais entre homens – “Transe numa boa” (A única arma…, 1985, p. 103).
Penteado é referido pela revista Manchete, em setembro de 1977 – antes, portanto, do lançamento do Lampião –, como liderança do movimento gay (Saffioti Filho, 1977, p. 88-93). Em texto publicado no Lampião, em dezembro de 1979, Darcy reconhece que “não se pode dissociar o fenômeno social do político” (Penteado, 1979, p. 9) e que todas as manifestações, as mais simples e triviais, integram a cultura. Nesse texto, Penteado chama a atenção para o caráter de processo da luta por direitos empreendida pelos setores descapitalizados (ditos “minoritários”): resulta da conscientização, que se desenvolve em duas esferas, individual e coletiva, e por meio da qual o “indivíduo minoritário” se percebe possuidor de direitos. Jorge Caê Rodrigues, que pesquisou a imprensa estadunidense, artesanal e industrial, e a brasileira a partir de Lampião, transcreve trechos desse ensaio (apud Rodrigues, 2010, p. 69), que tem por título “Cultura homossexual: já existe?”. Traz a primeira parte, em que Darcy expressa a visão ampliada de cultura (segundo parágrafo da segunda coluna), mas não transcreve ou cita a parte onde Penteado recorda a indissociabilidade entre o fenômeno social e o político (primeiro parágrafo, primeira coluna).
Diferentemente da quase totalidade de seus contemporâneos, Darcy não discriminava as travestis prostitutas; ao contrário, tanto as integrava como as defendia (como defendeu, opondo-se publicamente contra as rondas do delegado Richetti, aplaudidas pela imprensa paulistana):
Assim sendo, tanto contribuirão para uma cultura homossexual o ensaísta conscientizado [como] o artista que retrate aspectos desse contidiano (sic), o entendido que não pretenda criar nada [,] mas que viva sua sexualidade cotidianamente, a bicha louca que dá shows na rua, a sapatona que distribui sopapos, o travesti-prostituto que leva porrada da polícia etc. etc… (Penteado, 1979, p. 9).
*Historiadora.
Referências:
A ÚNICA arma contra a Aids. Manchete, Rio de Janeiro, ano XXXIV, ed. 1737, 3 ago. 1985, p. 103.
MORANDO, Luiz. Facebook, 20 abr. 2023. Acesso em: 20 abr. 2023. Disponível em: https://bit.ly/3AzkG9I. Acesso em: 3 maio 2023.
PENTEADO, Darcy. Cultura homossexual: já existe?. Lampião da Esquina, Rio de Janeiro, n. 19, p. 9, dez. 1979. Disponível em: https://bit.ly/444r32v. Acesso em: 3 maio 2023.
SAFFIOTI FILHO, José. Os acordes da liberação gay. Manchete, Rio de Janeiro, ano XXV, ed. 1325, 10 set. 1977, p. 88-93.
RODRIGUES, Jorge Caê. Impressões de identidade: um olhar sobre a imprensa gay no Brasil. 1. ed. Niterói: EdUFF, 2010.
Fotos:
1. Foto de Darcy na Bienal de São Paulo, 1967. Acervo Fundação Enrico Dell’Acqua – São Roque (SP). Disponível em: darcypenteado.github.io/
2. Darcy fantasiado de Pierrô, Carnaval de 1981, Escola de Samba Imperatriz leopoldinense, Rio de Janeiro (RJ). Imagens do Acervo Darcy Penteado, Fundação Enrico Dell’Acqua – São Roque (SP). Disponível em: darcypenteado.github.io/
3. Primeiro sentado, da esquerda para a direita, Darcy Penteado em foto do jornal Última Hora, matéria sobre violência policial contra prostitutas, dez. 1978. Acervo Darcy Penteado, Fundação Enrico Dell’Acqua – São Roque (SP). Disponível em: darcypenteado.github.io/
4. Material gráfico sobre a AIDS (Cartaz Aids), 2022. Galeria Recorte, São Paulo (SP). Disponível em: darcypenteado.github.io/