O orgulho antes do Orgulho - Fredirico Jorge Dantas
Por Rita Colaço-Rodrigues*
Fredirico Jorge Dantas foi mais um dos atores nas ações embrionárias do Movimento Homossexual Brasileiro (MHB). Atuou como editor e colaborador de vários periódicos artesanais. Morava na rua Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Flamenguista, além da militância homossexual, gostava de enviar cartas ao Jornal dos Sports, discutindo futebol. Dessa geração, sabemos que ele e Manoel Messias Bacco, do Círculo Corydon e do Jornal do Gay, possuíam contato com ativistas do exterior.
No número oito do Gente Gay (30/07/1977), nas páginas 12-15, com o título “Comportamento homossexual”, ele apresentou um manifesto contra o preconceito e a discriminação. Recorria ao discurso dos especialistas (como era usual), citou organizações do movimento gay estadunidense (como Albany Trust e a Frente de Liberação Gay) e conclamava: “É hora de se ir para as ruas e lutar em prol de nossos ideais […] Vamos emergir das cinzas que nos jogaram por tanto tempo” (Dantas, 1977, p. 13-15).
Em entrevista ao jornalista Fernando Moreno, em sua coluna Tudo entendido, no Gazeta de Notícias, falou de sua proposta:
um verdadeiro movimento é a união, a nossa participação, a nossa conscientização e o apoio a uma liderança autêntica dos nossos representantes pioneiros na América do Sul, como Celso Curi, Agnaldo Silva, Darcy Penteado e a Frente de Liberación Homosexual de Argentina, hoje em exílio na Espanha e com a qual pretendemos formar união para lançar um manifesto público em prol da libertação homossexual no continente sul-americano (Fredirico Jorge Dantas apud Moreno, Gazeta de Notícias, s/d, Acervo Fundo Turma Ok, AEL/Unicamp).
Fredirico editou o jornal Eros (s/d.) e o boletim Aliança dos Ativistas Homossexuais, em 1977, onde divulgava a sua proposta política:
Iniciamos um Movimento de esclarecimento que tem como meta o melhor entendimento e aproveitamento de todo esse manancial de forças positivas, até agora mal distribuídas entre as várias classes de homossexuais. Se conseguirmos canalizar todo o esforço existente voltado no sentido de um compromisso maior e mais responsável para com a sociedade, acreditamos já ser isto de grande importância à nossa causa, especialmente na luta pelos direitos civis em que estão empenhados não somente os homossexuais brasileiros, mas de maneira ainda mais atuante, os homossexuais de todos os países onde a consciência humana já tem maior abertura, mais maturidade cultural e psicológica, como também maior desenvolvimento (Aliança dos Ativistas Homossexuais, n. 2, 1977, p. 2).
[…] É um dever de honra participar e promover esta campanha pelos nossos direitos, pela nossa própria sobrevivência como seres humanos. […] (Aliança…, ano 1, n. 4, p. 1).
Nas páginas do Aliança, datilografado em papel A-4, frente, contendo de oito a onze páginas (n. 2 e 3, s/data), veem-se, a exemplo dos periódicos homossexuais dos EUA produzidos no modo industrial, comentários sobre livros, a homossexualidade nos discursos especialistas, o movimento no exterior (EUA e Inglaterra). Nelas, Fredirico divulgava os jornais Gente Gay e Entender; elogiava o trabalho de Celso Curi (Coluna do Meio), Glorinha Pereira (Correio de Copacabana), Agildo Guimarães (Gente Gay), Darcy Penteado (citado como “a Catedral de esclarecimentos[,] com sua força e lealdade para com nossos problemas”), Aguinaldo Silva, Paulo Augusto (Aliança…, ano 1, n. 3, p. 3).
Como tantos ativistas dos EUA nessa época, Fredirico apresentava visão assimilacionista, repudiando as travestis e os afeminados, e desqualificando as ações pautadas no humor, na paródia do feminino glamuroso. Não os percebia como parte da subcultura, da formação da identidade coletiva, proteção contra a atomização, o desenraizamento (como tantos pesquisadores, ainda hoje). Das ações embrionárias (as colunas em jornais, os livros de Aguinaldo Silva e Paulo Augusto abordando o tema, a postura pública de Darcy Penteado, o Gente Gay, o Aliança), ora as percebe enquanto constituintes do movimento pela “liberação homossexual”, ora não (Aliança, n. 3, p. 3, 1977 e Lampião, n. 0, abr. 1978, p. 5), o que nos parece apontar para a assimilação da leitura produtivista, marcada também pela inferiorização.
No número zero do Lampião da Esquina (abr. 1978, p. 5), ele voltou a falar sobre a sua proposta: “abrir espaços destinados a pessoas que se irmanem no sentido de formar uma pequena escola, visando com isto à formação de um grupo consciente e interessado no que mais tarde poderá vir a ser o Movimento de Libertação Homossexual”.
*Historiadora.
Referências
Aliança dos Ativistas Homossexuais, ano 1, números 2, 3 e 4, 1977. Acervo Fundo Turma Ok, AEL/Unicamp.
DANTAS, Fredirico Jorge. Comportamento homossexual. Gente Gay, Rio de Janeiro, n. 8, 30 jul. 1977, p. 13-15. Acervo Fundo Turma Ok, AEL/Unicamp.
Lampião da Esquina, Rio de Janeiro, n. 0, abr. 1978. Disponível em: https://cedoc.grupodignidade.org.br/jornal-lampiao-da-esquina-1978-1981/0-ed-jornal-lampiao-da-esquina-abril-1978/?
MORENO, Fernando. Ping-gay-pong entrevista com Frederico Jorge Dantas. Coluna Tudo Entendido. Gazeta de Notícias, s/d, Acervo Fundo Turma Ok, AEL/Unicamp.
Fotos
Lampião da Esquina, Rio de Janeiro, n. 0, abr. 1978, p.5. Disponível em: https://encr.pw/4zUVO
MORENO, Fernando. Ping-gay-pong entrevista com Frederico Jorge Dantas. Coluna Tudo Entendido. Gazeta de Notícias, s/d, Acervo Fundo Turma Ok, AEL/Unicamp.