"valéria o travesti", o primeiro disco gravado por uma travesti no Brasil

Por Caia Maria Coelho*

Depois de anos, consegui encontrar o meu raríssimo compacto, “valéria o travesti”, que é reconhecido como o primeiro disco gravado por uma travesti no Brasil. De alguma forma, esse disco faz parte da memória travesti de Pernambuco, embora Valéria seja carioca.

No compacto, Valéria grava algumas canções apresentadas no espetáculo musical Les Girls, um super sucesso de público e crítica, que foi censurado em Santos, Porto Alegre e Recife, em 1966.

O Diário de Pernambuco dizia que o Teatro Santa Isabel estava sendo ultrajado e se transformando em um galinheiro. Numa entrevista ao Diário da Manhã, uma pessoa dizia “a suspensão da temporada da companhia Les Girls foi uma infeliz iniciativa do prefeito, que no futuro irá comprometer sua pessoa como também a cidade do Recife, que regrediu a séculos passados ditando a mesma cartilha de França, que condenou Oscar Wilde”.

O futuro chegou e não se envergonhou. O episódio foi apagado, junto a tantos outros contra travestis. O vereador Wandekolk Wanderley, que pediu ao Prefeito o cancelamento da temporada, é responsabilizado como um perseguidor dos comunistas, envolvido na morte de um assessor de Dom Helder Câmara, mas esqueceram de nós.

Um ano antes daquele episódio, Valéria tinha deixado sua voz na história da música. Gravou, pelo Selo Mocambo, da Fábrica de Discos Rozemblit – uma indústria pernambucana -, o compacto “valéria o travesti”. Nunca a silenciaram. Se você perguntar, talvez ela te diga: os anos 70, para mim, foram ótimos.

 

*Caia Maria é cineasta e pesquisadora travesti e intersexo.

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