Tributo a Marlene Casanova (14/12/1941 – 12/05/2026)

“os mortos não levam embora o que incendiaram.”
– excerto do poema de Jau Sant’angelo, no Facebook, em sua homenagem.

Jornal Pasquim, ed. 821, s/autoria. Acervo: Hemeroteca Digital Bb. Nacional

E se foi mais uma estrela, triste, magoada pelo egoísmo e vaidade de certas colegas,
pelo desrespeito de alguns produtores e diretores artísticos
e pelo malsão etarismo que grassa na população “LGBTQIAPN+”.

“Marlene,

teu nome ficou pendurado na fumaça dos bares
como um letreiro aceso às três da manhã
quando a cidade já desistiu de fingir
virtude.

O Rio continua passando batom
nas ruínas da própria boca.
E tu foste uma dessas criaturas
que aprenderam a rir
mesmo quando a polícia, a fome, o deboche
e o espelho
queriam apagar teu rosto.

Veio da Bahia
com um sol inteiro escondido na mala
e desembarcou na Lapa
como quem desafia o mundo
a suportar o brilho de uma estrela
inconveniente.

Durante o dia,
o carimbo seco dos Correios.
À noite,
o salto alto esmagando a hipocrisia
sobre o palco.

Ah, Marlene —
há pessoas que apenas envelhecem.
Tu viraste território.
Viraste memória clandestina
das travestis que sobreviveram antes do aplauso virar moda,
antes das bandeiras coloridas chegarem às vitrines,
antes dos convites elegantes
e das fotografias patrocinadas.

Teu riso sustentou muita gente.
Tua coragem vestiu corpos abandonados.
Teu deboche alimentou famintos de existência.

Cantavas
como quem puxava o próprio coração
pelos cabelos.
E quando fazias graça,
o público ria sem perceber
que por trás da purpurina
existia um animal ferido
tentando continuar vivo.

O mundo foi cruel contigo
como costuma ser com quem ousa existir
fora da fila.
O etarismo te empurrou para o silêncio,
e o silêncio é o cemitério favorito desta sociedade.

Mas escuta:
os mortos não levam embora o que incendiaram.

Teu nome continua atravessando
camarins,
copos sujos de cerveja,
cartazes rasgados,
boates fechadas,
e a memória daqueles
que aprenderam contigo
que existir já é um ato político.

Hoje o céu da Lapa
deve estar usando plumas exageradas.
Algum anjo desafinado
deve estar tentando acompanhar tua voz.

E Deus —
se tiver algum senso de espetáculo —
já abriu as cortinas.

Porque certas mulheres
não morrem.

Entram definitivamente em cena.”

— Jau Sant’angelo, no Facebook, em comentário à postagem de Paulo Henrique Martins sobre o falecimento de Marlene Casanova.

De nome civil Roque Antônio de Andrade, imortalizou-se na cultura homo e transexual carioca, paulistana e brasileira como a grande Marlene Casanova. Participou de montagens de enorme sucesso, como Mimosas até Certo Ponto, Gay Fantasy (direção da também grande Bibi Ferreira), Adorável Rogéria e Orquestra de Senhoras (de Jean Anuilh, com produção de João Paulo Pinheiro, no Teatro Alaska), entre outras. Marlene criou o prêmio Troféu Rogéria, em 1980, entregue com cerimônia no Teatro Alaska, à qual prestigiavam muitos artistas televisivos.

Fernando Moreno, em sua coluna no A Luta Democrática, tendo assistido Gay Fantasy, reconheceu nela uma “grande humorista”. Gilmar Torres, colunista no mesmo periódico, dela dizia, em 1981: “Marlene, um talento que o preconceito ou a falsa moral, teimosamente ignorada pela televisão (sic) que admite travesti sendo ridicularizado em sua arte, em programas de calouros. Um artista que se assume, na comicidade e na inteligência.” A própria Marlene, em entrevista ao Pasquim, complementa: “Não sei se é discriminação dos bonis da vida, mas sempre que a história exige um travesti, botam um ator desmunhecando. Ou então usam mulheres afetadíssimas, dando pinta sem saber dar. Não sei se é censura.

De ser fã ardorosa da cantora Marlene adveio o seu nome artístico, cujo sobrenome resulta do estrondoso sucesso que a distinguiu no comando do palco do também inesquecível Cabaré Casanova, onde reinou na década de 1970, como apresentadora e diretora artística.

Criada pelos avós em Salvador, ao perceberem seu jeito afeminado a enviaram para o Rio de Janeiro, a morar com o pai e um irmão mais velho em Jacarepaguá. Quando o pai “tomou conhecimento”, ela saiu de sua casa, segundo a própria, aos 17 anos, deixando-lhe uma carta. Foi viver com o salário que recebia, como “funcionário de  ministério”. Trabalhou nos Correios até que seu sucesso na noite como artista trans fizesse com que o preconceito e a hipocrisia a expulsassem da empresa. Cantora “dona de voz afinadíssima”, atriz, humorista, compositora, dançarina e apresentadora com enorme domínio de palco, demonstrava profunda generosidade e respeito pelas colegas, às quais dava dicas e orientações. — segundo registros no Facebook de quem partilhou de sua amizade e dividiu com ela o palco em incontáveis espetáculos e concursos entre os anos 1970 e 1990.

Casou-se com “uma menina de Salvador” com quem dividia a habitação, no Rio de Janeiro, para atender ao desejo de familiares. “Só dei desgosto e aborrecimento pra minha família. Tá na hora de dar uma grande alegria.” – e partiram para o Fórum, em Salvador. Geraram duas crianças. A primeira faleceu. A segunda, uma menina, foi criada pela mãe, da qual se separou por ser muito ciumenta. Já estava hormonizada nessa época.

Do Facebook também vem a informação de que, já bastante frustrada com o mundo artístico trans — onde os convites escasseavam e invariavelmente vinham com ofertas de cachês miseráveis, quando não de graça —, sobreveio o golpe final: determinada colega de profissão, que comandava o elenco de Divinas Divas, manteve-a de fora, ignorando o seu talento e trajetória. Desiludida, passou sua coleção de trajes a um dono de brechó de Copacabana (depoimento de Jaime Palhinha, no Fb). Em seguida, foi embora de vez para sua Bahia natal, onde destransicionou e buscou conforto na religião, tornando-se católica fervorosa.

No dia seguinte ao seu falecimento, o portal G1 publicou a notícia acrescentando que, em 2022, a atriz Neusa Borges no Conversa com Bial, mencionou a ajuda recebida da colega trans durante a composição da personagem cigana Pombagira, na novela Carmem, da antiga TV Manchete — mais um dos incontáveis testemunhos de sua generosidade e senso de coletividade. Também no dia 13, Kassandra Taylor, proprietária do Castelinho da Kassandra, em Itaipuaçu, que também atuou em shows de transformistas em Copacabana, declarou, no seu perfil no Fb: “A primeira pessoa que realmente me acolheu (quando chegou ao Rio, com menos de 18 anos), me abriu os braços e me ajudou naquele início foi Marlene Casanova.” Safira Bengell, outra artista trans, em 07/12/2024, declarou, também no seu perfil no Fb, que foi Marlene quem a indicou para atuar como sósia da cantora Maria Alcina no palco do Cabaré Casanova, nos anos 1970, com o que lhe abriu as portas para uma carreira de sucesso e distinção, longe do destino de sobreviver de fazer pista.

Marlene Casanova, mesmo após retomar a pessoa civil Roque Antônio de Andrade, jamais foi esquecida por todos que puderam desfrutar de seu talento, privar de sua amizade e generosidade. Talvez tenha falecido sem saber disso. Por negligência, indiferença, descaso nosso.

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