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Babados da hora

Les Girls – 56 anos: uma tentativa de história (1)

Les Girls – 56 anos: uma tentativa de história (1)

 Por Luiz Morando*
A intenção aqui é fazer uma breve história, por meio da imprensa, do show Les Girls, que criou a fama para um grupo de travestis no Rio de Janeiro nos anos 60 e fixou um formato de show que se tornou padrão pelas décadas seguintes.
Hoje, quero fazer apenas alguns comentários que precedem a criação de Les Girls.
É importante colocar em perspectiva o termo ‘travesti’ e a expressão ‘fazer o travesti’. A designação travesti não estava ligada a formas de pensar uma identidade de gênero ou de fazer representar uma expressão da sexualidade, como fazemos hoje. A travestilidade estava associada a um desvio da saúde psíquica/sexual de ‘homens’ que se faziam passar por ‘mulheres’. Ou seja, adotavam vestimentas, acessórios, gestos, comportamentos, expressões atribuídos ao sexo feminino. Nesse sentido, estavam reunidos a um conjunto considerado marginal de pessoas que não correspondiam a um padrão cisheteronormativo, como nos referimos hoje. Em um contexto em que a discussão sobre a construção social de gênero não era feita com a centralidade de hoje, o debate girava em torno do reconhecimento do sexo colado a uma identificação estritamente binária: nasceu com pênis, é homem; nasceu com vagina, é mulher – pronto, acabou!

Assim, tornou-se muito comum a expressão ‘fazer o travesti’ como forma de se referir ao travestimento de ‘homens como se fossem mulheres’. Foi uma fórmula empregada em diversas produções discursivas, particularmente nas artes visuais, especialmente no teatro. No Brasil, desde o século XIX, essa forma de exposição artística ocorreu, mas se intensificou ao longo do século XX (por exemplo, nos anos 20 e 30, Darwin e Aymond eram os grandes artistas do travesti). A partir de 1953, Ivaná se tornou a grande referência para o que ficou conhecido como ‘travesti artístico’ (para se dissociar do travesti comum – assim mesmo, no masculino, como foi utilizado até o início dos anos 90 –, amplamente relacionado a diversas formas de suposto desregramento: prostituição, criminalidade, marginalização social, exploração sexual).

Na virada dos anos 50-60, shows dirigidos, entre outros, por Carlos Machado – como “Vive les femmes!”, de 1961 – eram encenados no Rio, projetando Sophia Loren (o gaúcho Ektor, que atualmente vive no México como Ektor mesmo). Copacabana já era um bairro efervescente, e a Galeria Alaska, já em 1957, tinha um público boêmio diversificado constituído também por pessoas do segmento hoje dito LGBTQIA+.

Bem rapidamente, é esse contexto que precede a formação de Les Girls.

Abaixo, conforme identificação realizada por Valéria Gonzalez Fernandez:
Sofia (Ektor), Biju Blanche, Manon, e, em página inteira, Nádia Kendall (nome em homenagem à atriz Kay Kendall, de quem foi fã ardorosa)
show na boate Favela (Revista do Rádio, 17/12/1960)  

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* Mestre e Doutor em Literatura (Brasileira e comparada, respectivamente) pela UFMG, professor da Uni-BH, pesquisador da História do segmento LGBTQIA de Belo Horizonte, MG, tem diversas de suas pesquisas publicadas.
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