Beijos, querida Angela Rô-Rô

Por João Carlos Rodrigues*

R.I.P. É muito triste escrever sobre a morte de um artista querido e ainda mais difícil quando essa pessoa foi também uma amiga próxima desde a adolescência. Estou me referindo a Angela Rô-Rô. Nascemos no mesmo ano (1949) e fomos criados na mesma lendária Ipanema dos anos 1960/70. A vi cantando lindamente antes de ser profissional The Fool on the Hill dos Beatles em casa no piano, e quis o destino que assistisse também seu último show no Teatro Rival.

Como não lembrar dela vindo pelas areias de Ipanema num pôr do sol de 1970, toda de branco tocando uma flauta doce, linda, meio Candice Bergen? Ou das nossas intermináveis conversas internacionais gratuitas, ela em Londres, eu em San Francisco numa colônia nudista, pirateando um cartão de crédito da Fundação Rockfeller? Isso foi no início dos anos 1970. Ou seu grande amor pela linda e culta Letícia Moreira de Souza, céu e inferno para ambas? Idem com Zizi Possi. Ou dos amigos comuns: Paulinho Lima, Marco Rodrigues, Glauber Rocha, Isabella Campos, Fabiano Canosa, Carlos Van der Bosch e outros que agora infelizmente não relembro?

Há um grande anedotário que inclui uma macarronada mal sucedida oferecida em Roma pelo Michelangelo Antonioni onde ela perdeu as estribeiras (não com o anfitrião, fique bem claro). E o encontro com Dona Dulce Figueiredo onde Angela cismou que a primeira dama estava se engraçando pro lado da Zizi? Seus maus humores marcaram época, com luta corporal com um PM no Baixo Leblon e coisas que tais. Mas podiam ser hilariantes pois tinha um grande senso de humor. Conheci também a supermãe Dona Conceição, outra inesquecível. Relacionamento bipolar entre as duas.

Rô-Rô foi batizada Angela Maria em homenagem à grande Sapoti, mas a voz era mais Maysa, assim como os olhos. Adorava Janis Joplin e Big Mamma Thorton. Mas sempre foi única, não imitava ninguém, sendo também inimitável. Uma rainha do underground que chegou ao hit-parade. Maktub, estava escrito. Vai fazer falta ao público e ainda mais aos amigos. Até breve, querida. Você foi grande e está definitivamente no panteão das grandes intérpretes da mpb. Beijos mil.”

 

*Jornalista, pesquisador e escritor. – facebook.com/joaocarlos.rodrigues.18

Referências

Foto rara de Angela Rô-Rô antes de virar cantora, numa comunidade desbundada e desbundante em St. Martens Laten, na Bélgica, uma fazenda macrobiótica – na época grande novidade. O ano é 1972. No caminho entre Roma e Londres. Fonte: enviada da estrela ao seu amigo.

 

 

 

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