Claudia Wonder - “Antes de poder mostrar a voz, foi preciso mostrar muita coisa”.
Vídeo: divulgação, @caiacaiacaia, no Facebook.
Por Caia Maria Coelho*
Outro dia, postei “Valéria o travesti”, que é reconhecido enquanto o primeiro compacto gravado por uma travesti, em 1965. Um disco que procurei por anos a fio. Mas essa ideia de “primeiro” sempre me incomoda. Não apenas porque nunca temos como saber com certeza, mas porque acredito que o estatuto do “acontecimento” não deveria constranger a reivindicação da memória.
Aquilo que poderia ter sido, mas foi censurado ou perdido com o tempo, não pode ser desconsiderado apenas porque não restou o documento, o som, o objeto em mãos. Não podemos nos dar esse luxo. Diante de uma memória tão escassa, é preciso aprender a se relacionar com a privação, a reconhecer também o que não foi possível, mas foi tentado, como parte do que celebramos.
Essa entrevista da Claudia, para mim, fala exatamente disso. Em 2007, ela lança o CD Funky Disco Fashion, com os Laptop Boys — mas quem lembra desse demo de que ela e Rita Lee conversam? Nenhuma gravadora quis gravar seu disco, alegando que o Brasil não estava preparado. Na escassez, talvez Claudia àquela altura não soubesse da existência do compacto de Valéria, lançado pelo selo Mocambo 13 anos antes. Eram também estéticas muito diferentes.
“Antes de poder mostrar a voz, foi preciso mostrar muita coisa”.
Mas existia a demo, que provavelmente nunca poderemos ouvir. Existiu o Jardim das Maravilhas. Existiu o desejo de gravar sua voz. Tudo isso é história da música travesti brasileira, à revelia de um desejo perfeitamente compreensível de origem e do estatuto do acontecimento.
*Caia Maria é cineasta e pesquisadora travesti e intersexo.