Eu não sou uma travesti? - Sobre o terceiro gênero e a solidão intersexo

Foto: divulgação, @caiacaiacaia, no Facebook.

Por Caia Maria Coelho*

Uma série de acontecimentos tem me feito pensar que, para algumas pessoas, deixei de ser travesti e agora sou intersexo.

Eu sou uma travesti intersexo bissexual. Tenho gênero, variação das características sexuais e sexualidade. Mas a minha experiência como ativista LGBTI tem se transformado em uma solidão avassaladora.

Encerrar o movimento LGBTI no gênero ou na sexualidade é um desrespeito com o i na sigla, que não significa invisível.

Algumas pessoas acham que agora sou o terceiro gênero. Não o terceiro gênero onde a cisgeneridade enquadra a travesti. Mas o terceiro gênero onde a endosexualidade enquadra as pessoas intersexo.

Apenas refutamos a ficção que as características sexuais, o sexo designado, são dois. Isso não significa que somos não bináries, travestis, homens ou mulheres, cis ou trans.

A resistência em compreender isso não é uma dificuldade genuína, mas o registro de um compromisso com a endosexualidade.

Infelizmente é uma posição que afasta pessoas intersexo do movimento LGBTI e mantem as que resistem no i de isolamento, enquanto violências como pedir exames e violar nossa privacidade são corriqueiras.

As pessoas intersexo enfrentamos obstáculos estruturais para termos acesso aos nossos próprios prontuários médicos, exames e, enfim, temos dificuldades de nos reconheceremos entre pares.

Depois, experimentamos dificuldades desproporcionais para nos organizarmos politicamente.

Quando as pessoas intersexo vão deixar de ser uma letra na sigla para ocupar uma posição prioritária entre as demandas do movimento LGBTI e feminista?

Escrevo este post como um desabafo, depois de dias exaustivos, um tanto quanto solitários, mas quero apostar que foram dias de letramento. Quero me apegar à solidariedade de companheiras como @brunabenevidex e @dayanna.louise , para seguir apostando que, apesar da endonorma, nós vamos conjurar a política intersexo no Brasil e reflorestar a monocultura do sexo.

 

*Caia Maria Coelho é cineasta e pesquisadora travesti e intersexo.

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