Jackson Marino Paulo e Carmem Lúcia da Silva - 1960 - EP.5

Por Luiz Morando*

Em julho de 1962, os jornais cariocas revelaram a história de Jackson Marino Paulo, de 22 anos, e Carmem Lúcia da Silva Paulo, de 20 anos. O casal vivia em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, desde quando tiveram seu casamento realizado em um cartório de registro civil, celebrado em 13 de fevereiro de 1960. Por causa da inadimplência no pagamento de uma casa em Miguel Couto, Jackson foi denunciado à polícia de Nova Iguaçu em julho de 1962. Jackson foi preso em 25 de julho e durante a revista policial na delegacia foi evidenciado que ele usava faixas para pressionar os seios.

Para a mentalidade da época e o gozo da imprensa, o escândalo e o espetáculo estavam armados: “duas” mulheres haviam se casado. Da questão comercial/financeira passou-se rapidamente ao âmbito privado/doméstico. O promotor público da cidade, Abeilar Pereira Gomes, entrou na história: requisitou o livro de registros para providenciar a anulação do casamento. A certidão encontra-se registrada no Livro 81, folha 27, sob o número 47.959.

A um jornal, Jackson declarou o seguinte: “Estou aliviado! Apesar de tudo, apesar da dolorosa revelação de meu segredo, da brutalidade da Polícia exigindo que eu me despisse antes de entrar no xadrez, sinto-me feliz; entrego-me de corpo e alma nas mãos da Ciência. Quero a felicidade completa, com meu verdadeiro sexo, pois sou homem, sinto que o sou desde pequeno e já em Barbacena não suportava vestidos sobre o corpo. Quando mamãe me vestia como mulher, rasgava todas as roupas”.

Jackson nasceu em Barbacena e mudou-se em 1959 para Duque de Caxias, onde conseguiu se registrar com o nome escolhido em um cartório.

Por sua vez, Carmem se expressou assim: “Estou muito satisfeita com meu marido, e tenho fé em Deus que após tudo ficar serenado, voltaremos a viver felizes. Nós nunca tivemos uma briga. Nossa vida era um mar de rosas.”

O casal trabalhava e poupava para que Jackson pudesse se submeter à cirurgia de confirmação de gênero.

 

*Luiz Morando é co-fundador do Museu Bajubá, onde exerce a vice-presidência e a coordenação da Estação Belo Horizonte.

Fotos:

1. Jackson e Madalena. Fatos e fotos, Rio de Janeiro, ano II, n. 79, 04/08/1962, última página. Acervo: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

2. Jackson e Madalena. Última Hora, edição Niterói, ano XII, n. 914, 26/07/1962, p. 1, 7. Acervo: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

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