João Ceschiatti – 110 anos do mestre da cena teatral de Beagá
Por Luiz Morando*
Descendente de italianos, João Ceschiatti nasceu em Belo Horizonte (MG), em 24 de junho de 1916. Ele foi ator e diretor teatral na capital mineira. Desde criança, foi propenso a se encaminhar na arte dramática: aos sete anos, já era solicitado para atuar em companhias italianas de ópera que vinham ao Brasil para turnês.
Em Belo Horizonte, no início de sua juventude, fundou o Teatro do Estudante. Na primeira metade da década de 1940 atuou na companhia teatral de Henriette Morineau, de quem fazia imitações que deliciavam os/as colegas. Esse período foi marcado por um largo aprendizado e pela ampliação do arco de amizades no campo da arte dramática: foi amigo de Bibi Ferreira, Paulo Autran, Paschoal Carlos Magno, Ziembinski e do artista plástico e cenógrafo Sansão Castelo Branco, entre outras personalidades.
No final dos anos 40, retornou à sua cidade natal e se dedicou integralmente ao teatro. Em 1946, dirigiu com sucesso a peça Espectros, de Henrik Ibsen. No início dos anos 1950, foi convidado a dirigir um grupo de teatro amador com funcionários do Sesi. Nascia então o Teatro Operário do Sesi, que consagrou Ceschiatti como diretor de tragédias gregas e clássicos da dramaturgia europeia dos séculos XVIII e XIX. Apenas nos anos 50 ele dirigiu Escola de maridos e O avarento, de Molière; Medeia, de Eurípedes; Os romanescos, de Edmond de Rostand; A sapateira prodigiosa, de Garcia Lorca; além de O noviço, de Martins Pena. Muitas de suas encenações – um total de 28 peças – foram premiadas.
Após deixar o Sesi no início do decênio de 1960, transformou sua casa em restaurante que funcionava apenas às sextas-feiras e sábados, no bairro Barro Preto. Porém, os jantares promovidos por ele tinham como convidados artistas que passavam temporadas em Beagá, artistas da cidade homenageados e a elite belo-horizontina, instada a pagar caro para participar dos regabofes.
Daí em diante, Ceschiatti não voltou mais à cena dramática, apesar de já ter sido consagrado e ter um lugar reservado na memória teatral. Ele se tornou uma respeitada referência também por ter revelado vários nomes do teatro belo-horizontino, como Antonio Naddeo, Italo Mudado e Ezequias Marques.
João Ceschiatti faleceu em 8 de agosto de 1987, esquecido pelo grande público e devastado por um câncer. Ainda em vida, em 1984, foi homenageado com a concessão de seu nome a um teatro de arena no complexo do Palácio das Artes. A homenagem foi uma iniciativa do ator Jota Dangelo durante seu mandato como diretor daquele centro artístico.
*Luiz Morando é co-fundador do Museu Bajubá, onde exerce a vice-presidência e a coordenação da Estação Belo Horizonte.
Fotos
As imagens são dos jornais Diário da Tarde e Diário de Minas, do acervo da Hemeroteca Histórica da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa.
Foto 1 – Diário da Tarde, Belo Horizonte, ano XXIII, n. 10.014, 13/12/1954, 2ª-feira, p. 10 57 anos de teatro em Belo Horizonte
Foto 2 – Diário da Tarde, Belo Horizonte, ano XXVII, n. 19.505, 26/04/1960, 3ª-feira, 2º Caderno, p. 3 Society adere ao palco: Teatro do Sesi levará peça de Lorca para trabalhadores
Foto 3 – Diário de Minas, Belo Horizonte, ano VI, n. 1.767, 22/05/1955, domingo, p. 17 Doze mil operários assistem (aplaudindo) a uma tragédia grega
Foto 4 – Diário de Minas, Belo Horizonte, ano VI, n. 1.475, 23/05/1954, domingo, Suplemento Literário, p. 2 Escola de maridos pelo Teatro do Sesi