Magnus Hirschfeld, um grande precursor pelos direitos de homo e transexuais
Por Rita Colaço-Rodrigues*
(Atualização: 16/05/25)
Hoje comemoramos os 157 anos do nascimento e noventa do falecimento de Magnus Hirschfeld – médico nascido no reino da Prússia (atual Polônia), precursor da sexologia, dos estudos e defesa da homo e transexualidades como comportamentos naturais.
Hirschfeld mobilizou sua rede de relações para a criação: da Liga Mundial para a Reforma Sexual (processo iniciado em 1921 e consumado em 1928), que buscava, por meio da informação pública, combater os preconceitos relacionados à sexualidade; do Comitê Científico-humanitário (Wissenschaftlich-humanitäres Komitee, WhK), em 15 de maio de 1897 – criado no seu apartamento em Charlottenburg, tornou-se a primeira organização exitosa na luta em defesa dos direitos civis das pessoas homo e transexuais. O Comitê, que chegou a possuir 700 membros, chegou a desenvolver um programa de educação sexual, que despertou enorme interesse. Era, basicamente, a realização de palestras e a edição, a baixo custo e em grandes tiragens, de um folheto informativo, distribuído em eventos, “esquecidos” em veículos do transporte público e, a pedidos, enviados aos familiares de homo e transexuais. O Comitê também editou, a partir de 1899, a revista científica “Fahrbuch für sexuelle Zwischenstufen” (sic) – Anuário sobre intermediários sexuais -, dirigida por Magnus até 1929. O Comitê terminou incorporado ao Instituto para Estudos da Sexualidade.
O Instituto para Estudos da Sexualidade
No início de 1918, Hirschfeld declarou seu interesse em criar o Instituto para Estudos da Sexualidade (Institut für Sexualwissenschaft), realizado em julho e 1919, com recursos próprios. Foi instalado no imponente prédio, adquirido por Hirschfeld em 1918, ex-residência do virtuoso violinista Joseph Joachim), localizado na rua In den Zelten 10, esquina com a rua Beethoven 3, no bairro Tiergarten, em Berlim. Com as ampliações das atividades do Instituto, a casa vizinha, na In den Zelten 9a, também foi comprada, integrando-se ao Instituto. O prédio contava com biblioteca, salas de consultas, reuniões e convivência e cinco quartos, no sótão. Estes eram utilizados para aluguel a artistas e para pacientes homo e transexuais em situação de vulnerabilidade, cuja sobrevivência era assegurada por meio de contribuições de seus fundadores. Havia ainda um museu do sexo, com finalidades também educativas. O Instituto atuava nas áreas da medicina, neuropatologia, dermatologia e endocrinologista, ginecologia, educação sexual, psicologia, psiquiatria, etnologia/folclore e antropologia. Pesquisa, ensino e assistência eram os eixos principais das atividades do Instituto, que contava com programas em de educação continuada para médicos, advogados, professores, enfermeiros, policiais e o público em geral. Suas atividades englobavam ainda a produção de filmes, sessões noturnas de aconselhamento, sessões de cinema e publicação de periódicos.
Em seis de maio de 1933, o Instituto foi invadido pela juventude hitlerista (Deutsche Studentenschaft), tendo início o saque e destruição de todo o seu acervo, queimado dias depois, em 10 de maio.
Com a ascensão do nazismo, Hirschfeld, que além de homossexual e ativista era judeu, teve a sua vida na Alemanha inviabilizada. Morreu no exílio, na França, em 14 de maio de 1935.
Após a Segunda Guerra Mudial, Hirschfeld e seu trabalho foram completamente esquecidos, ao ponto de surgir o mito fundador de Stonewall como o início do movimento mundial.
Com a redescoberta de sua obra, foram publicados trabalhos sobre sua trajetória e realizações. Vários pesquisadores pelo mundo atuam para recuperar seus trabalhos e itens do acervo do Instituto.
Em 2019, ano do centenário da criação do Instituto, a rede de Arquivos, Livrarias, Museus e Coleções Especiais sobre temas “LGBTI+”, ALMS, realizou a sua conferência internacional, intitulada Queering Memory, na Casa das Culturas do Mundo (Kaus der Kulturen der Welt), prédio construído próximo do local onde se situava o Instituto, destruído por bombardeios durante a Segunda Guerra Mundial, ocupado que foi pelos nazistas. Hoje, no local onde existiu o Instituto, foi erigida uma coluna contendo placa em memória de Hirschfeld e seu Instituto.
*Historiadora.
Referências:
DOSE, Ralf. Magnus Hirschfled – The Origns of the Gay Liberation Movement. Translated by Edward H. Hills. New York: Monthly Review Press, 2014, 128p.
COLAÇO, Rita. ALMS Conferência Queering Memória Berlim 2019. 25 jul 2019, blog Memórias e histórias das homossexualidades. Disponível em: https://memoriamhb.blogspot.com/2019/07/alms-conferencia-queering-memoria.html.
Fotos:
Imagens oriundas do livro de Ralf Dose, Magnus Hirschfeld – The Origins of the Gay Liberation Movement.
1. Magnus Hirschfeld na biblioteca do Instituto. Acervo do Archives of the Magnus-Hirschfeld-Gesellschaft, Berlim.
2.Baile no Instituto para Estudos da Sexualidade. Hirschfeld é o segundo da direita da foto. Acervo do Archives of Magnus-Hirschfeld-Gesellschaft, Berlim.