Nota em solidariedade ao professor Francisco Teixeira

Francisco Teixeira, historiador e professor titular da UFRJ. Foto:Divulgação, disponível em: diariodocentrodomundo.com.br

O Museu Bajubá, um museu virtual de história das pessoas LGBTI+, vem a público manifestar sua solidariedade ao doutor Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor titular da UFRJ, professor emérito de Teoria da Guerra, na Ecme/Exército Brasileiro, e Doutor Honoris Causa pela UFS.

O pesquisador, reconhecido pela seriedade dos seus estudos, vem sofrendo ameaças contra a sua vida e integridade física por conta de seu trabalho como historiador acadêmico e público do período de nossa última ditadura.

Mais recentemente, o professor Francisco Teixeira foi citado para uma ação judicial, movida pelo general Álvaro Pinheiro, que o acusa de “calúnia, difamação e falsificação da história” e que tem como pedido a cassação de seus títulos universitários e uma indenização financeira.

A prática do lawfare e da ameaça pessoal como forma de silenciamento tem se tornado arma corrente por parte dos remanescentes da ditadura impune.

Pessoas homo, transexuais e travestis também foram alvo de agentes da repressão civil-militar do regime de 1964 (perseguições, cassações, prisões arbitrárias, abusos sexuais, humilhações e trabalhos forçados), conforme demonstram pesquisas de diversos autores.

Não aceitaremos a reedição do clima de intimidação e terror daqueles tempos. Em memória de todas as pessoas atingidas pelo arbítrio, pela violência de Estado, dizemos não.

Leia a nota na íntegra:

Rio de Janeiro, 03/12/2025

“Um passado que não passa…”

Conforme a famosa frase do historiador alemão Ernst Nolte, vivo hoje um triste reviver de tempos que imaginava superados. Hoje fui intimado por um oficial de justiça em um processo no qual sou acusado de calúnia, difamação e falsificação da História (sic!!!) pelo conhecido general Álvaro Pinheiro, que exige indenização e a cassação de meus títulos universitários. Desde algumas semanas, venho também recebendo grosseiras ameaças contra minha vida e minha integridade física, de origens desconhecidas. Agora, meu trabalho livre de cinco décadas como historiador está sob risco de ser silenciado por meio de ameaças e lawfare.

O fato de a transição democrática brasileira ter sido estranha ao conceito de justiça de transição permite, pela terceira vez, que eu e meu trabalho sejamos colocados sob risco de mordaça. Trata-se de um caso único, em uma democracia moderna, de um historiador ser ameaçado por um membro ativo de um regime ditatorial já encerrado.

Aos 71 anos de idade, tenho, entretanto, a mesma força dos 18 ou 19 anos, quando lutei, com milhares de outros brasileiros, pela democracia e pela liberdade do Brasil. Mais que julgar um professor, prometo àqueles que querem calar a História que tal processo será levado adiante como um processo daqueles anos sombrios. Tais ameaças antidemocráticas serão transformadas, de uma ameaça pessoal, em um julgamento da própria ditadura e de seus agentes.

Os anos que passei no Ministério da Defesa e em suas organizações militares — onde fiz verdadeiros amigos — servirão de base para expor um mundo sobre o qual ainda não se fez luz. Estou velho e cansado e, no entanto, com o coração batendo forte do lado certo do peito, orgulhoso de ter lutado o bom combate, o que meus acusadores, com certeza, não podem dizer de suas carreiras. Volto ao combate certo de que escreverei mais livros e artigos sobre tempos tão sombrios. Nada me deterá ou me amedrontará.

Sou historiador da mesma matéria, talvez de menor gênio, que Marc Bloch. Historiadores, como elefantes, não esquecem e não se amedrontam.

Francisco Carlos Teixeira da Silva
Professor Titular de História Moderna e Contemporânea / UFRJ
Professor Emérito de Teoria da Guerra / Eceme / Exército Brasileiro
Doutor Honoris Causa — UFS.

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