Encontros em João Pessoa e Fortaleza (1968)
Por Luiz Morando*
Os eventos mencionados no terceiro episódio da série “O orgulho antes do Orgulho” demonstram certo poder de organização e sofisticação na sua realização. Eles revelam também a circulação de informações e troca de experiências entre homossexuais e travestis do Rio de Janeiro. Esse contexto ganha um pouco mais de complexidade com os dois eventos pretendidos naquele mesmo ano – 1968 – em duas capitais do Nordeste, ou seja, fora do eixo considerado cultural e financeiramente central no Brasil.
Junho de 1968 – nova tentativa de Congresso Nacional do Terceiro Sexo (ou Congresso de Travestis ou Congresso de Bonecas) em João Pessoa. O evento estava programado para junho, porém, desencadeou uma reação forte por parte das forças de Segurança Pública desse maio. O delegado de Costumes de João Pessoa, Ordolito Azevedo de Barros, e o secretário de Segurança Pública do estado, coronel José Gadelha de Oliveira, desencadearam uma ofensiva que se tornou verdadeira caça às bruxas, quer dizer, caça aos viados: reforçaram o policiamento e realizaram diversas operações “limpeza”, detendo homossexuais e travestis.
No caso da capital paraibana, havia uma pauta com quatro itens para serem debatidos no evento: “a) reconhecimento do 3° sexo; b) permissão para casamento e divórcio entre homossexuais; c) reivindicação de melhor tratamento por parte da sociedade; d) fundação do Clube dos Enxutos, que deverá ter funcionamento livre, onde quer que seja implantado” (Diário de Pernambuco, ano CXLIII, n. 118, 2° Caderno, 22/05/1968, p. 5). Essas reivindicações demonstram um grau de discussão bastante adiantado entre as redes que existiam naquele momento. O que é mais intrigante é conhecer como essas redes se sustentavam, como trocavam informações, como formavam e mantinham suas lideranças!
Julho de 1968 – Tendo ficado claro que os participantes não conseguiriam se reunir em João Pessoa e com a rejeição manifestada previamente pelas autoridades do Recife para permitir que essa capital sediasse o encontro, o evento foi deslocado para Fortaleza.
Porém as autoridades da capital cearense também reagiram e impediram a realização do encontro, conforme se vê nesta reportagem:
“FORTALEZA (de Egídio Serpa, correspondente) – O anunciado ‘Congresso Nacional dos Enxutos’, que os travestis cearenses estavam preparando às escondidas da Polícia, parece que não se realizará. Ontem, policiais da Delegacia de Costumes e Diversões prenderam na Rua Ouvidor, no centro de Fortaleza, doze ‘enxutos’, alguns considerados ‘líderes da classe’.
Os detidos foram agarrados à força pelos policiais, que os conduziram para uma das celas daquela Delegacia, onde pernoitaram com gritos de protesto contra a prisão. Entre os presos estão ‘Claudete Soares’, ‘Gisela’, ‘Silvana’, ‘Florinda Bulcão’, ‘Índia’ e ‘Sofia Loren’, este, principal articulador do conclave nacional dos ‘enxutos’.
Os travestis detidos serão liberados na manhã de hoje, com a promessa de que voltarão a reunir-se, ‘porque a Constituição nos garante esse direito’, segundo declarou à imprensa o sofisticado Sofia Loren, sob aplausos dos seus colegas.
As reuniões dos travestis fortalezenses são realizadas às escondidas, num apartamento localizado a poucos metros do Quartel General da 10ª Região Militar, na Praça do Passeio Público.” (Diário de Pernambuco, Recife, ano CXLIII, n. 186, 1° Caderno, 11/08/1968, p. 10) É inegável a capacidade de mobilização das travestis naquele momento, em um ano marcado pelo recrudescimento autoritário.
*Luiz Morando é co-fundador do Museu Bajubá, onde exerce a vice-presidência e a coordenação da Estação Belo Horizonte.
Fotos:
1. Congresso de Enxutos – DP 23-05-1968. Crédito: Diário de Pernambuco, Recife, ano CXLIII, n. 118, 22/05/1968, 2° Caderno, p. 5 Acervo: Hemeroteca Digital Brasileira
2. Enxutos 1960 – CM 30-05-1968. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, ano LXVII, n. 23.047, 30-05-1968, 1° Caderno, p. 1. Acervo: Hemeroteca Digital Brasileira