Peter Fry e Waldeílton di Paula
Por Rita Colaço-Rodrigues*
Hoje falaremos de mais dois personagens importantes de nosso ativismo: Waldeílton di Paula (Paulete Godiva) e Peter Fry.
Peter Fry é um antropólogo com importantes contribuições nos estudos sobre a homossexualidade no Brasil. Professor universitário aposentado, foi cofundador do Lampião da Esquina e é o único intelectual acadêmico a reconhecer (antes de nós) a importância cultural e política de nossa imprensa gay artesanal, que criou as condições de possibilidade para o surgimento do Lampião da Esquina – o que, infelizmente, ainda hoje, muitos no campo se recusam a aceitar. Em 1978, defendendo a produção de Waldeílton, denunciou o preconceito em relação à cultura bicha, presente entre os próprios homossexuais (a divisão bichas/bonecas e entendidos/gays) e a consequente desqualificação do trabalho desse “verdadeiro pioneiro”, pondo em relevo a riqueza de informação sobre a cultura viada acumulada naqueles boletins. Fry também se distinguiu ao sublinhar o peso da estigmatização na construção da identidade e da consciência política e destacar a importância da solidariedade, presente naqueles periódicos, e o seu papel na “libertação” dos homossexuais.
Waldeílton di Paula (Waldeílton Costa de Paula) foi um importante ativista na imprensa gay artesanal, onde atuava sob o pseudônimo de Paulete Godiva. Entre as décadas de 1960 e 1970 publicou periódicos variados (gays: Baby, Fotos e Fofocas, Zéfiro, Little Darling/Ello; e Top Less, O Coruja e Pimentinha, possivelmente dirigidos aos bancários). Nasceu em 30 de dezembro de 1941, em Alagoinhas, BA, mudando-se para Salvador aos 13 anos de idade. Faleceu em 11 de fevereiro de 2014, aos 73 anos, de parada cardiorrespiratória, no Hospital das Clínicas de Salvador, onde estava internado desde 29 de dezembro. Foi, segundo Anuah Farah, “bancário, poeta e cronista premiado, ator de teatro, cenógrafo, autor e diretor; artista plástico com várias exposições, individuais e coletivas, com “‘quadros em pinacotecas internacionais’”. Foi, também, estilista de reconhecido sucesso em Salvador e “o primeiro personagem assumidamente gay na TV baiana”, conforme depoimentos de seus amigos, que tomamos a liberdade de transcrever, constantes do blog Passarela Cultural:
Vestiu nomes como Luiza Brunet, Camila Pitanga, Marta Rocha e uma infinidade de estrelas e socialites. Representou a Bahia e o Brasil vestindo Misses em várias partes do mundo. Nas quadrilhas juninas, ajudou a estilizá-las, abolindo a simplicidade e introduzindo o luxo e o glamour aos figurinos, inspirado na versão européia dessa cultura.Toda quadrilha que tinha um figurino assinado pelo estilista, ganhava prêmio de melhor indumentária. Na televisão, foram mais de 15 anos.
Ele passou pela TV Itapoan (Programa de variedades “Di Tudo” – se não me engano o nome era esse), Rede CNT, TV Salvador e por último a TV Aratu, com o “Di Moda”. Produzia e apresentava o Baile dos Artistas no Fantoches, resgatando os antigos carnavais, o concurso Rainha do Carnaval, foi pioneiro ao criar no Bloco Tiete Vip’s o carro de apoio Vip, só para convidados, repleto de artistas e sempre brilhava com suas estonteantes fantasias. – Adan Nascimento, jornalista
Di Paula foi o primeiro personagem assumidamente gay da TV baiana, além de contribuir enormemente para reforçar a imagem dos gays cultos, informados e perfeitamente integrados na sociedade baiana.
Na TV, depois de estrear no “Som do Big Ben”, foi protagonista de um dos mais revolucionários e históricos programas locais, o “Na Intimidade”, campeão de processos da então horrenda censura federal, por quebrar paradigmas, romper barreiras e antecipar em décadas um formato de talk show “aberto” que só anos mais tarde seria replicado pelas grandes redes da tv brasileira.
No teatro, escreveu, produziu, dirigiu e atuou em diversos espetáculos, dando inclusive uma nova leitura às revistas de transformistas com o inesquecível “As Estrelas do Cinema Olympia”, remontado ano após ano sempre com grande público.
Na moda, foi um criador clássico, fã incondicional de Belenciaga e Paco Rabanne, criando uma marca própria que se destacava pela feminilidade e inspiração no cinema.
No carnaval, sua maior paixão, se tornou indiscutivelmente um dos grandes destaques do Carnaval da Bahia, indisputável estrela do “Tiete Vip’s”, com suas fantasias, ora luxuosas, ora criativas e satíricas. Também coube a ele resgatar o concurso da Rainha do Carnaval.
Entusiasta dos concursos de Miss, foi em suas mãos e ao lado de Julio César Habib que aconteceram os mais luxuosos desfiles do gênero, na década de 80.
Como se isso não bastasse, Di Paula levou aos Estados Unidos em diversas oportunidades a sua moda inspirada no artesanato de rendas e crochês da Bahia, tendo inclusive Luiza Brunet como modelo. Esse era um de seus maiores orgulhos.
Durante anos Di Paula apresentou seu programa semanal na TV Aratu, um espaço integralmente dedicado aos assuntos das artes e cultura da Bahia. – Carlos Borges, ex-coordenador do Miss Bahia.
O antropólogo Peter Fry teve o privilégio de conhecer o acervo de periódicos que produziu. Neles se encontram rudimentos de projeto político, reflexões sobre a construção da masculinidade, valorização da cultura bicha, da interação entre as turmas do Rio de Janeiro e Salvador e da solidariedade.
*Historiadora.
Referências
FRY, Peter. História da imprensa bahiana. Lampião da Esquina, Rio de Janeiro, n. 4, ago.-set. 1978: 4. Acervo pessoal.
LIMA, Daslan Melo. Sessão nostalgia – Waldeilton Costa de Paula, Di Paula (1941-2014), o legado do estilista baiano. Blog Passarela Cultural. 15 fev. 2014. Disponível em: https://passarelacultural.blogspot.com/2014/02/sessao-nostalgia_15.html. Acesso em: 28 jun. 2025.
MARIE, Bianca [FARAH, Anuah]. As grandes personalidades gay – (1). Gente Gay, Rio de Janeiro, n. 3, 15/02/1977, p. 15-16. Acervo AEL/Unicamp.
MÍCCOLIS, Leila. “Snob”, “Le Femme”. Os bons tempos da imprensa guei. Jornal Lampião da Esquina, Rio de Janeiro, n. 28, set. 1980, p. 6-7. Acervo pessoal.
Fotos
1. Peter Fry. Fotógrafo: André Teles, s/d. Divulgação internet, disponível no https://www.comciencia.br/dossies-1-72/entrevistas/fry.htm
2. Waldeílton di Paula. ivulgação internet, disponível no blog Passarela Cultural, passarelacultural.blog spot.com/2014/02/sessao-nostalgia_15.html
3. Periódico Baby, 1º Edição, pg. 1 e 2, Fevereiro, 1969, Bahia. Acervo AEL/Unicamp.