Praça Raul Soares

A praça Raul Soares foi inaugurada em 1936 para sediar a realização do II Congresso Eucarístico Nacional. Após o evento, foi relegada a segundo plano, apesar de sua beleza e extensão. Em 1952, com a inauguração do Cine Candelária, a Raul Soares se tornou um lugar de footing da classe média alta. Era muito comum assistir a um filme (nessa década, essa sala era frequentada por "pessoas...

A praça Raul Soares foi inaugurada em 1936 para sediar a realização do II Congresso Eucarístico Nacional. Após o evento, foi relegada a segundo plano, apesar de sua beleza e extensão. Em 1952, com a inauguração do Cine Candelária, a Raul Soares se tornou um lugar de footing da classe média alta. Era muito comum assistir a um filme (nessa década, essa sala era frequentada por "pessoas bem") e depois ficar girando na praça. Mas tudo começa a mudar com uma onda de liberalidade pós-II Guerra Mundial que começa a avançar dos Estados Unidos. Um grande impacto que afetará BH e a Raul Soares será provocado pelos valores, costumes e nova moda disseminados (entre outros produtos comerciais) pelos filmes Juventude transviada (Rebel without a cause, 1955) e Ao balanço das horas (Rock around the clock, 1956). O primeiro divulgou a ideologia do rebelde sem causa; o segundo fez explodir o ritmo musical rock in roll, que passou a dominar o gosto da juventude. A Raul Soares vai se tornar o ponto de encontro dos chamados 'jovens transviados', ou seja, motoqueiros com blusões de couro e uma garota na garupa; penteados à James Dean; calças compridas de boca mais estreita e a bainha um pouco acima do tornozelo; gírias típicas; os inseparáveis cigarro e chiclete; óculos escuros; um molejo típico da cintura ao caminhar; e uma prática que foi colada a esse segmento (de forma justa ou não): a curra. Pouco a pouco, os jotatês foram sendo relacionados a casos de sedução, atentado ao pudor, rapto e roubo, tornando-se um dos alvos preferenciais das delegacias especializadas de Costumes e Repressão à Vadiagem. A Raul Soares passou a ser visada como alvo de batidas policiais já em janeiro de 1959. Daí em diante, o discurso de "saneamento" de determinados logradouros públicos foi a tônica para justificar as operações policiais. Em geral, eram detidos alguns "delinquentes juvenis" (expressão muitas vezes usada como sinônimo de juventude transviada) e uma grande quantidade de prostitutas, malandros e vadios. Em junho de 1961, explicita-se de vez esse tipo de ação policial. O jornal Folha de Minas anunciava: "Polícia agirá contra transviados e travestis na Praça Raul Soares e Parque, anuncia Secretário". Do conteúdo, destaco o trecho: "Domingo próximo, o Parque Municipal e a Praça Raul Soares deverão sofrer completo saneamento por parte das autoridades policiais da Capital. (...) Esta medida do titular da Pasta de Segurança Pública se deve às constantes reclamações por parte de moradores de Belo Horizonte com referência aos escândalos promovidos por travestis no interior do Parque Municipal. Além dos pederastas que frequentam aquele local, principalmente na parte da noite, ainda existem casais escandalosos, que procuram aquele logradouro público para fins imorais e mulheres de vida irregular que ali transitam, à procura de fregueses, e sempre causam espetáculo deprimente. (...) As primeiras medidas para o saneamento da cidade serão tomadas nestes dois logradouros públicos, estendendo-se, a seguir, a outros locais, como a Praça da Estação, avenida Afonso Pena, etc." Em abril de 1963, o Diário de Minas desenhou um perfil da praça, tentando comprovar que as operações policiais de saneamento não surtiam efeito. A respeito da presença de travestis, o jornalista relatou o seguinte: "O pior acontece na praça, depois da meia-noite. Quando acaba o movimento das ruas e se apagam as luzes dos apartamentos vizinhos, os 'travestis' tomam conta da Raul Soares. Chegam em grupos de cinco ou seis e às vezes são mais numerosos. Se ninguém telefona para a radiopatrulha, eles são os donos da praça e lá ficam até amanhecer, quando ônibus e lotações aumentam de novo. Nem sempre são os mesmos 'mocinhos' que estão na Raul Soares, mas fazem todos a mesma coisa: os mais tímidos dançam balé e desfilam no jardim, como se fosse concurso de beleza, e outros encenam até strip-tease para os companheiros, correndo seminus pelas ruas." Autoria: Luiz Morando.
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