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Babados da hora

Qual lugar ocupamos? Olhares sobre ALMS Conference 2019

Por Leonardo Arouca
Acadêmico de História (USP)
Integrante do Museu da Diversidade Sexual de São Paulo

Vivenciar a ALMS Conference é sem dúvida uma grande experiência a todos que estudam e se preocupam com a preservação de arquivos, memória e histórias Queer ao redor do mundo. Um espaço de muita potência, trocas e construção coletiva, que tem como função promover o intercâmbio global das culturas, histórias e memórias da diversidade sexual ao redor do mundo.

Leonardo na Mesa de Encerramento Defending the future,
falando sobre o atual cenário político do Brasil
Acompanhei algumas das mais de 200 apresentações que foram expostas em cerca de 60 mesas do evento, sem contar os espaços de construção de redes, compartilhamento de acervos e apresentação de shows, espetáculos e filmes que a organização proporcionou. Aliás, diga-se de passagem, um evento muito bem organizado que conseguiu intercalar, debates políticos, acadêmicos, apresentações de centros de salvaguarda de memória, apresentações de arte e espaços de troca entre os participantes.
Contudo, para os latino-americanos, alguns contrastes saltavam aos olhos, entre eles a massiva representação da Europa no Congresso e a sub-representação de nosso continente, assim como a Ásia e África. De mais de 300 participantes, apenas 6 provinham da América Latina, o mesmo se repetia com outros territórios com exceção da Europa e América do Norte.
Essa sub-representação, mesmo que involuntariamente, respaldou uma atmosfera imperialista, que inflava as narrativas de pioneirismo ocidental sobre a liberdade sexual. E com um espaço limitado dos outros continentes a força desses discursos tomavam tons, cada vez mais universalizantes.
Mas qual pode ser o impacto de inflar essas narrativas em espaços de pretensão global? Isso não pode assegurar o lugar do pioneirismo em relação a liberdade sexual a Europa e Estados Unidos?
De forma alguma, esse balanço pretende negar a importância do pioneirismo da Rebelião de Stonewall, Karl von Ulrich e Magnus Hirschfeld, a qual a edição do evento homenageava o centenário de seu Instituto de Sexologia, localizado no mesmo lugar onde ocorreu o evento na Haus del Kulturen der Welt em Berlim. Pelo contrário, compreendo a importância ímpar dessas personalidades e acontecimentos para a construção de uma sociedade de direitos e esses pioneirismos sempre serão fundamentais. Mas é preciso possibilitar voz a outras histórias e narrativas também.
Acredito que formas de organização com sub-representação de territórios historicamente explorados reproduzem uma lógica de poder, que também se organiza histórica e estruturalmente para marginalizar as populações LGBTQ+ em todo o mundo. E talvez nesses descuidos, ou simplesmente pela falta de atribuição de valor as narrativas latinas, africanas e asiáticas, eventos como esse, que são fundamentais de existirem, podem criar um ambiente de exclusão a regiões e setores que historicamente são destituídos de poder e voz para se manifestar.
Implicado com essas questões, duas mesas aguçaram um pouco a vontade de falar sobre esse problema, uma delas foi a apresentação de Ramy Khouili, sobre o Article 230: A History of the Criminalisation of Homosexuality in Tunísia. Que aborda a formulação das Constituições da Tunísia, pontuando a inserção da criminalização da Sodomia na Constituição de 1913, enquanto o código de 1861 era extremamente permissivo para as homossexualidades, gerando inclusive demasiada indignação da França durante o processo de colonização do território.
Essa permissividade em relação a sexualidade na Tunísia, muito anterior a Magnus Hirschfeld e Stonewall estão inseridas em um projeto ou na ideia de História Queer Global? A história das homossexualidades na Tunísia é de fato considerada nessa perspectiva? Não sou da Tunísia e a conheço muito pouco, mas talvez essas questões se reflitam em todo Oriente, América Latina, África e Ásia, quando pensamos uma História Queer Global, em que para muitos, esses marcos não chegam nem perto dos nossos territórios.
Logo em que medida essa História/ideia Queer Global, não é uma história estritamente Ocidental? Por mais singelo e involuntário que seja, o imperialismo europeu pode estar sendo reproduzido em espaços, que deveriam ser espaços de inclusão, que deveria mirar uma representação justa dos continentes.
Pude refletir sobre as mesmas questões com a apresentação de Albert McLeod & Brett Lougheed, sobre a comunidade indígena Two-Spirit no Canadá. Em que medida os estudos decoloniais em relação a sexualidade indígena, oriental, africana e asiática, estão tendo a atenção que merecem? E em que medida essas histórias também não desmontam esse pioneirismo ocidental e reorganizam os marcos da Diversidade Sexual?
Qual o impacto dos estudos decoloniais para a reorganização desses marcos? Considerando que algumas comunidades originárias que possuíam uma sexualidade fluída, preservadas ou parcialmente preservadas, como o caso dos Two-Spirit no Canadá podem ter reflexos na cultura de povos ainda atuantes em seus territórios. Assim como haviam povos indígenas no Brasil, dizimados no processo de colonização que tinham uma sexualidade fluída e padrões de gênero que não eram reflexos da cultura europeia.
Mas será que a história dessas culturas, mesmo podendo exercer influência em comunidades contemporâneas, como caso do Two-Spirit estão sendo de fato agregadas em uma ideia de história Queer Global ou estão sendo ignoradas? De onde parte essa história? Qual o início e qual o fim?
O quão fundamental e político é inserir as histórias das sexualidades dissidentes, dos territórios periféricos, assim como era o território onde eclodiu a Rebelião de Stonewall nos Estados Unidos em 1969, para que de fato consigamos caminhar para uma inclusão real.
Mesmo que haja apenas uma desclassificação dos territórios que não são a Europa, essa desclassificação também não é a reprodução de imperialismo, elitismo e marginalização dos nossos te
rritórios e da nossa cultura, assim como as estruturas de poder sempre marginalizaram as populações LGBTQ+?
A América Latina, a exemplo, tem histórias anteriores a Magnus Hirschfeld e Stonewall, assim como a Ásia e Oriente e possivelmente a África podem ter. Como e por quê fatos como os 41 do México em 1901 enunciado por Miguel Alonso durante a conferência ou marcos como a criação da Frente de Libertação Homossexual Argentina, fundada em 1971 dois anos após Stonewall não tem uma projeção justa, ou minimamente simétrica nesses espaços?
No caso da Argentina, a história da FLH não foi sequer apresentada, porque havia apenas uma pesquisadora do país, um território que ao se tratar de História do Movimento Homossexual na América tem um valor fundamental. Contudo apenas 3 dos 20 países da América Latina puderam estar presentes nesse espaço.
O mesmo acontece com o Brasil, onde se tem histórias como a do Carnaval brasileiro, de Madame Satã, Clovis Bornay e etc, que não puderam se fazer presentes naquele espaço. Assim como questões culturais, sui generis, como o desenvolvimento do Pajubá, um dialeto da comunidade LGBTQ+ brasileira, criado pela comunidade trans e de influência direta do Yorubá. Que poderiam ter sido apresentados na Conferência, mas com essa sub-representação essas trocas são impossibilitadas. Se estamos mirando um desenvolvimento humano e inclusivo é necessário incluir essas histórias, ou essa ideia de diversidade e inclusão será apenas um discurso falacioso.
Que há déficit na América Latina de produções sobre sexualidades dissidentes em relação à Europa e Estados Unidos, isso é sabido, mas em que medida a próxima Conferência não deve se preocupar com um convite e inserção mais ampla dos países que não fazem parte da Europa? Eventos de pretensão Global precisam ter políticas de paridade, sobretudo em eventos de grupos socialmente excluídos e que pregam a diversidade e inclusão. Por isso é preciso olhar de forma crítica, como as histórias desses territórios estão sendo inseridas nesses ciclos.
A falta de espaços de apresentação e a falta de incentivo a participação de conferencistas de fora da Europa em espaços como esse reproduzem a mesma lógica de apagamento que historicamente a cultura das sexualidades dissidentes enfrenta em seus territórios. A produção e cristalização desses marcos, que às vezes parecem ser organizados em um a lógica de repetição ao invés de aguçar um espirito crítico de análise não pode acabar sub desenvolvendo a história e cultura das sexualidades dissidentes no mundo. Penso que às vezes caminhamos nesse sentido, tornando nosso trabalho demasiado ambíguo e essa crítica não se restringe a conferência.
E acredito que além dessas questões, a falta preocupação com os territórios da periferia do poder e do “capitalismo”, pautou sintomaticamente a programação e a acessibilidade do evento, colocando toda a América Latina em 3 mesas, das mais de 60 do evento, sem preocupação com nenhuma tradução simultânea para o espanhol, língua mais falada do mundo após o inglês, enquanto idiomas como o Russo possuíam tradução.
Logo, deixo esse balanço para que a próxima organização do evento, que poderá ocorrer entre os anos de 2022 e 2023, que poderá ocorrer no Canadá, Estados Unidos ou Suécia. Se a pretensão do evento é ser inclusiva e global, olhem com mais atenção para a América Latina, Ásia e África, porque esses territórios têm muito a dizer e se a pretensão é construir uma História Queer Global ou uma rede global de solidariedade, essas histórias precisam estar inseridas nesse ciclo. Se não estaremos atuando ao lado das estruturas que historicamente oprimiram a nossa comunidade.
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