Ricardo Demoprat Marshall e Maria Vitória Assis - 1963 - EP.6
Por Luiz Morando*
Em dezembro de 1961, uma “jovem mulher” de 20 anos foi intimada a comparecer à polícia após ser denunciada por vestir-se de homem e namorar uma mulher. Ao delegado, ela afirmou que se tornara um rapaz aos 10 anos e desejava se casar com a namorada. Apesar de ter comparecido à delegacia com vestes femininas, insistiu que era homem e que se apresentara assim por não ter documentos “como rapaz”. No entanto, afirmou que usava roupas masculinas. No dia seguinte, seu pai declarou-se chocado e desmentiu a “filha”. Após ser submetida a exame médico-legal, “a jovem” foi declarada pertencente ao sexo feminino. O delegado repreendeu-a e recomendou à família submetê-la a tratamento psiquiátrico.
Em dezembro de 1963, Ricardo Demoprat Marschall foi acusado de estelionato. Descrito como “rapaz bem trajado, com maneiras delicadas, voz macia”, ele narrou que seus pais tiveram dois filhos; que fora registrado aos 16 anos; que sua mãe morrera quando ainda era bebê; que o pai o abandonara com três anos; que ele fora criado por terceiros.
Ricardo conseguiu uma certidão de batismo e outra de nascimento em junho de 1963. Detalhe: são documentos emitidos por um cartório e uma igreja de Belo Horizonte, mesmo que dentro de um contexto clandestino – ou seja, Ricardo criou alguma narrativa que convenceu os responsáveis pela emissão. Além disso, conseguiu uma carteira de identidade no órgão público responsável. Com aquelas certidões, casou-se no civil com Maria Vitória de Assis, em setembro de 1963. Nesse período, ele obteve ainda uma carteira de trabalho e empregou-se como corretor. Foi através dessa atividade que ele cometeu estelionato em dezembro de 1963, passando a responder a inquérito policial.
Em outubro de 1964, Ricardo utilizou o nome de um seu irmão para comprar eletrodomésticos em crediário. Por não ter quitado a primeira prestação, o gerente tentou localizá-lo e, não obtendo êxito, prestou queixa à delegacia competente, que rapidamente chegou à pessoa registrada com nome feminino.
A essa altura, Ricardo já havia se separado de Maria Vitória e residia “de pensão em pensão”. Desempregado, usara o artifício descoberto para angariar dinheiro. Ele confirmou que revendia os eletrodomésticos para pagar a pensão, comprar roupas e objetos de uso pessoal, além de gastar com mulheres.
Novamente, o pai de Ricardo se mobilizou à revelia do filho. Em 1965, ele foi submetido a exames endocrinológicos e a tratamento no Hospital Psiquiátrico Galba Veloso. Ele voltou a usar roupas femininas e precisou obter atestados comprovando ter se tornado “moça trabalhadora, educada, honesta, de confiança”.
Dois processos foram movidos: no de estelionato, a pessoa do registro civil de nascimento foi condenada a pena de reclusão. Sendo ré primária, o juiz extinguiu sua pena e manteve o pagamento de multa. Aquele em que é acusada de falsidade ideológica ficou paralisado, tendo sido prescrito em 1975.
A partir de 1966, não se falou mais de Ricardo, restando apenas as reportagens e os dois processos.
*Luiz Morando é co-fundador do Museu Bajubá, onde exerce a vice-presidência e a coordenação da Estação Belo Horizonte.
Fotos:
1. Ricardo, ficha policial. Foto de identificação criminal de Ricardo Demoprat Marshall. Acervo: Arquivo do Judiciário TJMG.
2. Certidão casamento Ricardo. 2ª via de certidão de casamento de Ricardo Demoprat Marshall. Acervo particular Luiz Morando.
3. Ricardo, carteira funcional. Carteira funcional de Ricardo Demoprat Marshall. Acervo: Arquivo do Judiciário TJMG.