Em maio de 2019 fez 32 anos (1987) do surgimento do XERERECA – um boletim lésbico, feminista e anárquico, produzido no Rio de Janeiro.
Ele surgiu no interior da vetusta Faculdade Nacional de Direito, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi concebido num bar – o Brasil, na Lapa -, por um grupo de três alunas (feministas todas, lésbica uma e bissexual, duas), como uma provocação ao conservadorismo e positivismo reinantes na faculdade, por um lado, e ao machismo dominante entre os colegas, companheiros nas esquerdas.
O nome era inspirado no Boletim Chana com Chana, das lésbicas do GALF, e expressava o desejo de causar, de provocar geral a galera hiper conservadora da Faculdade Nacional de Direito.
Tinha entre os seus colaboradores pelo menos dois homens (um gay e um bissexual meio indeciso de bancar o preço a ser pago em estigmatização e opróbrio – dobrado para a carreira jurídica -, caso o seu desejo sexual também voltado para homens se tornasse público). Igualmente alunos, eles burlescamente usavam pseudônimos femininos.
O pano de fundo era a ânsia pela democratização – do pais, das relações interpessoais, da sexualidade e, claro, do método de ensino jurídico.
Enquanto na PUC-Rio e na UnB vicejava o Direito Crítico e o Direito Achado na Rua, respectivamente, na outrora gloriosa FND, cujo aguerrido Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (CACO) se notabilizara pela intransigente defesa da educação pública de qualidade, do mandato presidencial do Presidente João Goulart e da democracia, muitos de seus alunos buscavam superar a terra arrasada imposta pelo regime ditatorial civil-militar implantado em 1964: professores nomeados via indicação política, sem concurso público; ensino meramente dogmático, acrítico e positivista, inexistindo a pesquisa ou a extensão.
A sociedade organizada lutava pela construção de um novo projeto de país, participando da feitura da nova Constituição e as mulheres conscientes já não toleravam práticas machistas e autoritárias, fossem de quem fossem.
Nesse pano de fundo é que se manifestam as críticas dessas mulheres e homens – a um tempo ácidas e irônicas, sagazes e debochadas, demolindo quase tudo.
