Assassinato do cantor e compositor Osvaldo Nunes

Em 18 de junho de 1991, uma terça-feira, o corpo do cantor e compositor popular Osvaldo Nunes, de 60 anos de idade, foi encontrado, no interior do seu apartamento, uma quitinete (nº 412) situada no prédio de número 740 da Avenida Gomes Freire, no Centro do Rio de Janeiro, vestido, ao lado da cama, sob um cobertor, apresentando 11 perfurações por faca e partes do corpo queimadas...

Em 18 de junho de 1991, uma terça-feira, o corpo do cantor e compositor popular Osvaldo Nunes, de 60 anos de idade, foi encontrado no interior do seu apartamento, uma quitinete (n. 412) situada no prédio de número 740 da Avenida Gomes Freire, no Centro do Rio de Janeiro. Estava vestido, ao lado da cama, sob um cobertor, apresentando onze perfurações por faca e partes do corpo queimadas (possivelmente por leite fervendo, vez que foi encontrada panela no fogão com vestígios). Como as mãos do compositor estivessem muito machucadas, a polícia deduziu tivesse havido muita luta e fosse mais de um o agressor. Nunes tinha compleição física robusta, pesava cerca de cem quilos, e o apartamento estava todo revirado. Segundo moradores e porteiros, era frequente Osvaldo Nunes levar garotos de programa para a sua casa. Policiais da 5ª DP (então na Avenida Mem de Sá) afirmaram que frequentemente Nunes fazia registro de furtos praticados na sua casa pelos garotos. Osvaldo Nunes nasceu em 1º de dezembro de 1930. Foi abandonado na porta de uma maternidade, sendo institucionalizado no Serviço de Assistência do Menor, o temido SAM (depois Funabem, igualmente de má fama). Assim como Madame Satã, desde cedo percebeu que precisava usar a luta corporal para se defender. Fugindo do SAM com aproximadamente 13 anos, num caminhão de carnes, passou a viver nas ruas, se virando como podia – vendeu balas, foi engraxate e artista ambulante –, terminando por se envolver na criminalidade. Esse contato com a marginalidade, durante a maior parte de sua adolescência, lhe possibilitou a aproximação com o mundo do samba e dos blocos carnavalescos, fazendo aflorar seu talento e originalidade. Compôs músicas carnavalescas de enorme sucesso na década de 1960, como Oba!, de 1962, que terminou virando o hino do bloco carnavalesco Bafo da Onça, ao qual se filiou. Outras canções de destaque são: Segura este samba Ogunhê (1969), Deixa meu cabelo em paz (196?), Na onda do berimbau (196?). Gravou cerca de apenas quatro discos long plays, o primeiro datado de 1962. Há também referências a um compacto, de 1961: Ôba! (1962); Tá tudo aí! (1969), com The Pop's; Você me chamou (1971); Ai, que vontade (1978); Aquele abraço – O melhor de Osvaldo Nunes (coletânea). Carismático e popular, adotou o estilo de integrar roupas, palavras e adereços das religiões afrobrasileiras. Exibia uma contagiante alegria em suas interpretações. Homossexual assumido, era extremamente popular nos bairros de Fátima e da Lapa. No apartamento, a polícia encontrou um atestado médico, emitido pelo Inamps, datado de 10 de junho, plastificado, declarando que Osvaldo Nunes não possuía nenhuma doença infectocontagiosa. Também foi encontrado no local o seu testamento, lavrado nas notas do 13º Ofício de Notas, no qual destinou todos os seus bens (a quitinete e os direitos autorais sobre as canções) para o Retiro dos Artistas. Seria enterrado como indigente, vez que nenhum parente foi reclamar o corpo. Seus amigos do Bafo da Onça se cotizaram para pagar o enterro, realizado no Cemitério do Catumbi, às 14 horas do dia 19 de junho, ao som de suas canções. Entre os amigos, muita revolta com o presidente da agremiação, Capilé, que não permitiu fosse o corpo velado no interior da quadra do bloco e tampouco emprestasse a bandeira do Bafo da Onça para envolver o caixão do integrante querido – a bandeira foi, afinal, conseguida, mas com a colaboração de outros diretores, sem o conhecimento do presidente Capilé. Cerca de quinhentas pessoas compareceram ao velório e sepultamento. Entre elas, o cantor Agnaldo Timóteo, o humorista Colé, o empresário de espetáculos Oswaldo Sargentelli, o figurinista do carnaval e participante de vários desfiles de fantasias, Mauro Rosas, que o classificou como "o maior sambista brasileiro", destacando o seu compromisso com o coletivo, ao doar seu patrimônio para o Retiro dos Artistas. Rosas ainda comentou que Nunes tinha consciência dos riscos que corria, em razão do tipo de parceiros sexuais que buscava. Onze anos depois, o Judiciário fluminense finalmente encerrou a ação que envolvia a execução de seu testamento. Assim, todos os seus bens puderam, finalmente, ir para quem de direito - o Retiro dos Artistas, instituição privada do Rio de Janeiro voltada para a proteção de artistas idosos. Autoria: Rita Colaço-Rodrigues. Revisão: Luiz Morando. Referências COLAÇO, Rita. Osvaldo Nunes - singelo tributo a um artista popularíssimo vitimado pela homofobia. Memórias e Histórias das homossexualidades, 13 fev. 2011. Disponível em: https://memoriamhb.blogspot.com/2011/02/osvaldo-nunes-singelo-tributo-um.html Jornal do Brasil, 19 jun. 1991, cad. Cidade, p. 5. Disponível em: Jornal do Brasil (RJ) - 1990 a 1999 - DocReader Web (bn.br) https://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_11&pesq=%22Osvaldo%20Nunes%22&pasta=ano%20199&hf=memoria.bn.br&pagfis=44739 O Fluminense, 20 jun. 1991, capa e p. 10. Disponível em: O Fluminense (RJ) - 1990 a 1999 - DocReader Web (bn.br) Jornal GGN, 3 set. 2014. Disponível em: Osvaldo Nunes - Jornal GGN A imagem em destaque é do Jornal do Brasil, 19 jun. 1991, cad. Cidade, p. 5. Não é mencionado, ali, o nome do fotógrafo.  
Memória traumática

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