Em seis de outubro de 2009 transcrevi aqui neste blog o texto de Daletty di Polly sobre Janaína Dutra, uma das mais destacadas lideranças Trans do Brasil.
Daletty abrira uma comunidade do Orkut em homenagem à memória da trajetória de Janaína. Com a sua autorização transcrevi para cá o registro que fez dessa personagem importantíssima na luta em defesa dos direitos de travestis e transexuais. Em 17 de abril do ano passado (2010) registrei, sob a forma de comentário àquela postagem, a informação de que Vagner de Almeida estava produzindo um documentário sobre Janaína.
Estava programado para o dia 30 de setembro, no Centro Cultural da Justiça Federal, aqui no Rio de Janeiro, a reestréia desse que é o mais novo documentário de Vagner de Almeida – documentarista que, com a sua sensibilidade e sentido de compromisso cívico, vem construindo uma obra da maior importância no processo de recuperação da história de gays, travestis, transexuais e lésbicas brasileiros.
Nesse trabalho, Vagner nos conta um pouco da trajetória da ativista pelos direitos humanos Janaína Dutra, a primeira travesti advogada no Brasil. Desafortunadamente, problemas de saúde me impediram de comparecer à essa sessão de reexibição.
O comentário escrito pela socióloga Cristina Câmara – autora de Cidadania e orientação sexual: a trajetória do grupo Triângulo Rosa -, porém, é bastante informativo e só faz aumentar o desejo de assistir mais esta produção do Vagner de Almeida – pessoa cuja obra em construção me provoca sincero júbilo.
Desejo sinceramente que esta produção do Vagner – como todas as demais – alcance o maior público possível.
“Janaína Dutra – Uma Dama de Ferro”Cristina Câmara
Socióloga, Doutora em Ciências Humanas/UFRJ e Coordenadora da “Acicate: Análises Socioculturais.SP, 1011
Assisti ao documentário “Janaína Dutra – Uma Dama de Ferro”, de Vagner de Almeida, duas vezes, mas serão necessárias muitas outras para poder apreender a riqueza de detalhes do documentário em si e da trajetória de Janaína.
Sobre o documentário, estilo que gosto muito, Vagner conseguiu localizar as personagens precisas para re-construir e re-contar a história de Janaína, em suas múltiplas facetas. Sua trajetória ativista é conhecida por muitos, mas relacioná-la a sua trajetória de vida oferece à audiência uma grata surpresa. Gostaria de comentar um pouco esses dois aspectos, mas antes é fundamental destacar a interessante opção por mesclar as narrativas históricas com as entrevistas e o depoimento da própria Janaína. A pluralidade de lugares referenciais das pessoas entrevistadas, falando sobre momentos e aspectos diferentes, e os diversos recursos utilizados enriquecem o documentário.
Sobre a trajetória de ativista, que obviamente não se dissocia de sua trajetória pessoal, mas, ao contrário, é parte dela, os relatos dos companheiros de diversas frentes demonstram a capacidade de articulação de Janaína, sua aceitação, respeito e bem querer por parte dos que tiveram o privilégio de atuar com ela. Na luta pelos direitos humanos, na defesa das pessoas soropositivas e no entendimento de que a prostituição pode ser uma opção, mas na maioria das vezes não o é para as travestis, que carregam múltiplas inserções sociais negativas, cotidianamente, dificultando suas vidas sob todos os aspectos.
Sobre sua trajetória de vida, é bonito e gratificante saber que uma família simples, de São Francisco de Canindé – cidade cearense de tradição católica, na qual abundam os devotos de São Francisco –, mantém a coerência entre sua religião e o respeito às diferenças. Isto é possível notar nos relatos dos familiares quando falam sobre Janaína, mas também nos relatos sobre ela e nos seus próprios. Um exemplo está presente na maneira como Janaína conseguiu relacionar sua identidade ‘Janaína Dutra’, duramente conquistada, a seu nome familiar ‘Jaime’ ou ‘Jaiminho’. Não se percebe uma polaridade, ao contrário, parece haver uma agregação de espaços e valores quanto à masculinidade e à feminilidade. Janaína foi inclusive uma referência paterna para seus sobrinhos. Quando alguém da família certa vez lhe perguntou sobre seu nome, ela respondeu: “Me chame de qualquer jeito.” Ela soube ser respeitosa com suas irmãs, por exemplo, e talvez por isto mesmo seja tão respeitada e lembrada com muito carinho e saudade por todos os familiares, amigos e companheiros de luta. E que amigos…
A relação com os amigos denota também dificuldades e desafios, não para aceitar Janaína, mas para entendê-la e respeitá-la, o que chega a ser comovente. Destaco apenas a narrativa de Manoelzinho, porque não seria possível aqui comentar a enorme riqueza de todas as outras. Chama a atenção sua grandeza e discrição quando ele diz ter percebido os seios de Janaína, mas não fez comentário algum, porque comentar soava quase como por em evidência algo apartado de seu ser. E, fosse como fosse, sua amiga era inteira para ele, independente da
s opções que fizesse sobre seu corpo.
A mãe de Janaína é um capítulo à parte, mas duas palavras me vêm à cabeça para tentar descrevê-la: Dignidade e lucidez. Segundo uma das irmãs: “Sempre aceitou o Jaime do jeito que ele era”. Por sua vez, não poderia deixar de destacar as palavras de Janaína que, a meu ver, compõem a mescla de sua trajetória: “O apoio familiar te empodera na sociedade”.
Como dito inicialmente, há muito mais a ser extraído nas informações e lições que o documentário retrata, por isso é preciso assisti-lo mais de uma vez.
Por último, mas não menos importante, gostaria de mencionar que o documentário de Vagner de Almeida consegue retratar uma beleza agreste, ao mesmo tempo rigorosa e simples. Beleza explícita na fotografia logo no início, mas subjacente ao longo do filme. As músicas, os ritmos, vão se adequando aos diferentes cenários. Enfim, é lindo porque é simples! Além da enorme contribuição por registrar e tornar pública esta história. Parabéns!